NOTA DO CRÍTICO
Era uma noite fria, cinza e chuvosa. O dia 06 de setembro, uma véspera de feriado, tinha tudo para desanimar quem ficou pela cidade de São Paulo. Mas tinha algo que mudou a paisagem urbana, pelo menos no que se refere aos arredores do Parque da Água Branca, mais especificamente, nas costas do Espaço Unimed.
Entre o chuvisco que teimava a cair, o muro dos comércios era abrigo de uma fila indiana de pessoas vestidas de preto que se estendia até a entrada da Audio, casa escolhida como local substituto ao evento, que, por falta de público, não estaria apto a ser realizado no Espaço Unimed, lugar da primeira opção - e com capacidade 60% maior. Bastava caminhar em sua direção para que qualquer pedestre se deparasse com varais improvisados entre os postes expondo camisetas e bandeiras do MGK, artista que, dali a algumas horas, se apresentaria na casa de show que dava origem à fila.
Dentro do espaço, o público se deparava com um salão dividido em dois ambientes para suprir a demanda pré-adquirida pela pista premium. Pista comum, além do já disponível mezanino, fechava as áreas de acomodação. Pelo tamanho da fila do lado de fora, até causava estranheza o baixo volume de pessoas no interior, mas, já às 19h50, ele dava luz à versatilidade etária do artista. Afinal, com uma simples passada de olhar, encontravam-se pagantes que iam desde os nove até a casa dos 30 anos.
Com música ambiente transitando entre o pop punk e o trap, o público da premium, ao mínimo movimento no palco, se via instigado a puxar gritos que pediam pela figura do MGK. Durante I Miss You, single do Blink-182, participação efusiva também foi presenciada, com o público cantando os versos em uníssono, o que se seguiu em meio a Into Deep, single do Sum 41. Ao soar do último acorde da canção, com as pistas já bem preenchidas, mas com notáveis pontos de gargalo, o áudio introdutório da apresentação começa a ser reproduzido pelos alto-falantes.
Quando o relógio marcou 21h03, MGK finalmente entrou no palco ao som de FIX UR FACE, causando um alvoroço. Os gritos do público, inclusive, foram tão intensos que fizeram com que o trepidar do chão, ocasionado durante os pulos de euforia, não tivesse tanta importância. Histeria seguiu inalterada durante Outlaw Overture, Maybe, Starman e Wild Boy, os títulos seguintes. Inclusive, com relação ao último, houve até mosh no centro da pista premium incentivada pelo próprio cantor, injetando ainda mais adrenalina na plateia.
Mesmo quando a apresentação apresentou uma desaceleração na participação do público, o que aconteceu somente a partir da sua segunda metade, a plateia ainda cantava com fôlego massivo, causando até risos de surpresa no próprio cantor, que demonstrou ter total controle da audiência durante toda a sua performance. Exemplos disso podem ser dados aos montes.
A obediência às sugestões das rodas mosh, citadas anteriormente, é apenas um ponto. Durante a apresentação, MGK ainda surpreendeu a plateia ao convidar duas crianças para acompanhá-lo no palco. Afetuoso com as meninas, ele puxava um pouco de conversa e até brincou com o pai de uma delas, dizendo que sabia o quanto estava cansado por carregar a garota no ombro por tanto tempo.
Com direito a trechos com dançarinas, nos quais o próprio cantor as acompanhava nos movimentos, pausas para o cigarro e conversas com o público, o show seguiu com clima misto de celebração, euforia e idolatria com Bloody Valentine, Kiss Kiss e Concert For Aliens como novos picos de adrenalina. Além de contemplar um momento acústico e intimista, que contemplou Times Of My Life e o medley Love Race-Sid & Nancy-27-Free Fallin’. Sentado à frente do palco com apenas um feixe de luz em sua direção, o vocalista entoou essa sequência munido apenas de seu violão.
Não foi apenas Free Fallin’, de Tom Petty, o único cover da noite. Logo na sequência, MGK puxou Danza Kuduro, faixa assinada por Don Omar, e que causou nova fase de intensidade participativa do público, que já vinha sendo provocada desde o pout-pourri. E tudo seguiu sem uma pausa sequer.
Com o cantor emendando uma música na outra sem nem dar tempo à plateia de se recompor, não houve nem uma introdução ou aviso sobre a partir de qual ponto o bis teria seu início. Sem ser avisado em relação a isso, o público viveu a última sessão de hits, que foi de DAYWALKER a Vampire Diaries com o mesmo grau de entrega até o literal último instante, quando o cantor levou sua equipe para a frente do palco e prestou reverência ao público, que dele se despediu às 23h.
Com um show marcado pela troca de tonalidades de luz, que fluía livremente entre o vermelho e o violeta, boa mixagem e músicos muito bem entrosados, MGK mostrou energia, carisma e um poder nato sobre a plateia que o assistia. Não porque os gritos eram ensurdecedores, os pulos intensos e as cantorias uníssonas, mas porque o público demonstrou adoração pela sua imagem, além de respeito e admiração.
E essa energia foi sentida pelo próprio cantor, que, por mais de uma vez, parou o set para relatar a sua surpresa e a forma como estava se sentindo frente ao frenesi. Prova de sua satisfação foi a confissão de que, em razão de seu alto grau de ânimo, o fazia querer seguir cantando mais e mais canções - e foi o que fez.
Com duas horas de show, contemplando um total de 32 faixas, além do medley, Machine Gun Kelly, indo contra algumas críticas de que sua apresentação no Rock in Rio, na noite anterior, foi recebida com apatia e hostilidade, encontrou, em São Paulo, o combustível certo para sua ignição. Uma prova da sintonia entre ele, a audiência e sua equipe, devidamente introduzida e contemplando os guitarristas Sophie Lloyd e Justin “Guitar Slayer” Lyons; o baixista Steve “Baze” Basil; o tecladista SlimXX; o baterista JP “Rook” Cappelletti; além das dançarinas Delaney Glazer e Caitlyn Holzer.
O show pode até ter sido trocado de lugar em razão da baixa procura, mas definitivamente o público presente conseguiu estancar essa carência com uma interação tão altiva e visceral que transformou até mesmo o próprio set. A partir daí, é possível dizer que MGK fez uma apresentação com duas perspectivas: a performance do Machine Gun Kelly como artista e o concerto do Machine Gun Kelly como mero espectador da própria plateia.

