NOTA DO CRÍTICO
O dia de domingo, 25 de outubro, foi chuvoso na esmagadora parte do tempo. Mesmo com a temperatura variando entre os 22º e os 25º C, a chuva deu trégua em apenas momentos esporádicos, sendo que, em outros, só diminuiu de intensidade. Ainda assim, com um céu cinza e completamente nublado, a região da Francisco Matarazzo viveu algo peculiar naquele 25 de outubro, especialmente no entorno do West Plaza e do Bourbon Shopping.
Em relação ao primeiro, camisetas pretas eram vistas aos montes vestidas por pessoas de diferentes idades, principalmente próximas à entrada da primeira loja oficial global do Iron Maiden, a qual foi responsável por enfeitar todo o restante do centro comercial. Já associado ao Bourbon Shopping, o volume de indivíduos com essa vestimenta era grande, mas não tanto quanto. Se protegendo da chuva, os transeuntes ali presentes aguardavam, ansiosos, pela abertura dos portões do Nu Bank Parque, antigo Allianz Parque, local que, mais tarde, receberia o próprio Iron Maiden com apresentação de abertura comandada pelos estadunidenses do Alter Bridge, banda com aparente pouca representatividade entre os pagantes, sendo vista nas estampas de camisetas de poucos passantes.
Claro que houve os corajosos, que, com capa de chuva ou não, se mantinham firmes em seus respectivos lugares nas filas. Generosas em volume mesmo faltando mais de duas horas para a abertura dos portões, elas indicavam a sede pelo grupo inglês, mesmo fazendo pouco menos de dois anos desde a sua última apresentação no local.
Perto das 18h, com o céu em trégua, a fachada do estádio seguia circundada por vendedores de capas de chuva e toda a sorte de lembranças do evento. Lá dentro, porém, o cenário era outro. Com todos os setores sendo preenchidos de forma gradativa, as pistas, como já era de se esperar, estavam com uma lotação significativa para o horário, ainda que apresentassem gargalos de tamanhos variados. Contudo, às 19h, pouco antes do show de abertura começar, o Nu Bank Parque se encontrava generosamente ocupado.
Alter Bridge
Às 19h09, o estádio se apaga, o telão se ilumina com os dizeres Alter Bridge, e a banda entra no palco, com seus integrantes ocupando gradativamente os seus respectivos lugares para, então, puxar Silent Divide, com a recepção indo do morno para o frio em uma velocidade surpreendente, ainda que com sonoridade bem equalizada.
Em Addicted To Pain, graças à sugestão de Myles Kennedy, houve um bater de palmas que durou ínfimos instantes. “Boa noite! I said to myself all day: don’t fuck it up!”, disse o vocalista envergonhado em relação à pronúncia correta da expressão antes de seguir com Cry Of Achilles, faixa que contou com palmas voluntárias especialmente por parte da parcela de pagantes da pista premium. Cenário parecido aconteceu também durante Fortress, quando, ao sinal da indicação de olas, a premium novamente obedeceu, assim como a parte frontal da pista comum, mas apenas momentaneamente.
“We’re honoured to open to Iron Maiden! It’s a dream come true!”, confessou Kennedy ao introduzir Silver Tongue, a primeira canção genuinamente ovacionada, especialmente após a finalização da sua execução, mostrando a força da faixa para com o público. A partir desse cenário, enquanto Metallingus se encontrava no início da sua ponte, o cantor tentou uma interação direta ao estimular, separadamente por setor, o crescimento gradativo de gritos enquanto levantava e abaixava os braços, levando a performance a longos aplausos.
Blackbird viveu um cenário interessante. Iniciada após os gritos da plateia chamando pelo Alter Bridge, a faixa viu, em alguns momentos, o estádio se iluminar com a ajuda das lanternas dos celulares, formando um ecossistema contemplativo e interativo bastante interessante. Infelizmente, porém, o mesmo não aconteceu durante Isolation. Afinal, durante a sua performance, ainda que Kennedy pedisse que a plateia cantasse as primeiras palavras do refrão, as quais consistem no próprio nome da música, um silêncio desconfortável se fazia, obrigando o cantor a seguir com a apresentação sem ser devidamente respondido e levando a apresentação ao seu encerramento às 19h57.
O público podia até ter esperado uma apresentação semelhante àquela realizada pelo grupo na Argentina alguns dias antes, mas havia diferenças gritantes entre os formatos. Lá, o Alter Bridge fez a sua própria performance como parte de sua What Lies Within Tour, tendo total domínio e liberdade com o tempo e com a plateia, o que culminou com uma sequência de 14 músicas. Em São Paulo, por outro lado, por serem banda de abertura, o tempo era menor, assim como a independência de interatividade.
O que pesou, para alguns, foi a enxutez do set list, pois foram oito contra 14. Contudo, a opção parece ter sido um caso muito bem pensado, pois, na capital paulista, o Alter Bridge optou por apresentar canções mais densas, progressivas e metalizadas, com durações maiores para um melhor casamento com o próprio perfil de músicas do Iron Maiden, tendo Fortress, Blackbird e Cry Of Achilles como exemplos.
Com clássicos pontuando a performance, apenas Silent Divide, de seu disco autointitulado e mais recente, foi escolhida para a apresentação, que teve, ao menos no setor da pista premium, como recompensa, um som potente e bem mixado, pois até mesmo o entrosamento entre os integrantes pareceu ensaiado a um nível mecânico. Por outro lado, a iluminação acabou sendo um espetáculo à parte, apostando em tons quentes como o vermelho e místicos, como o roxo e o lilás. Ainda assim, o que fica é a lembrança de um show que, na hora em que aqueceu, sofreu uma parada brusca, deixando o paladar insatisfeito e decepcionado com um sabor insosso.
Iron Maiden
Aquecida pela reprodução de Doctor Doctor, faixa do UFO, pelos alto-falantes, a plateia viu, às 20h44, o palco escurecer, o vídeo de abertura surgir nos telões e a presença de Eddie nele surgir como sinal oficial do início da apresentação. Acontecendo a partir de Murders In The Rue Morgue, faixa originalmente cantada na voz de Paul Di’Anno, o show viu o primeiro sinal de delírio do público durante a introdução e o refrão da faixa, ainda que, nos seus versos, a temperatura tenha ficado excessivamente morna.
E por falar em temperatura morna, ela seguiu durante a performance de Wrathchild, outra canção originalmente na voz de Di’Anno. Isso pôde ser visto a partir de interações repentinas com as pronúncias de ‘heys’ ligeiros, braços com punhos chifrados estendidos, breves cantorias e gritos em tom de ordem ao comando do vocalista Bruce Dickinson. Algo parecido aconteceu também durante Killers, que ganhou uma bateção de palmas imprecisa enquanto viveu a primeira aparição física de Eddie.
Fechando a trinca Di’Anno, faixas como Phantom Of The Opera e The Number Of The Beast tiveram participações intensas e genuínas do público. Em relação à primeira, havia pulos intensos, mas de duração curta que devolviam a plateia a um estado de adoração contemplativa. Sobre a segunda, foi onde a plateia se viu aquecida pela primeira vez - e de maneira genuína, entre gritos ovacionados e cantorias intensas no refrão. Foi aqui que, inclusive, pôde ser percebida uma execução em um compasso mais lento, dando a impressão de se adequar à capacidade de Simon Dawson no comando das baquetas.
Run To The Hills foi outra composição que, durante o entremeio da performance, conquistou boa participação do público. O interessante, porém, foi perceber que a interação efusiva aconteceu apenas no refrão, deixando os versos com menções vazias. Outros momentos interessantes que merecem ser pontuados foram as execuções de Seventh Son Of Seventh Son, em que Dickinson puxou a interação do público de maneira separada por setor; e The Trooper, em que a plateia gritou e cantou euforicamente na segunda vez que contou com a companhia de Eddie.
Claro que, no momento decrescente, em que a banda já caminhava para o fim da sua apresentação, outros momentos de intensa interatividade foram observados. Com um vídeo bélico sendo reproduzido no telão, Aces High levou a plateia a um, interessante furor, ocasionando uma boa participação. Ainda assim, Fear Of The Dark, com a iluminação do estádio dividindo espaço com as lanternas dos celulares, foi outro exemplo de reciprocidade com o seu clima místico que casou com um telão preenchido por um luar intenso. Composição ainda deu direito à formação de moshes em localidades pontuais e dublagem generalizada dos sons emitidos pela guitarra solo.
Wasted Years, como faixa de encerramento, viu o público entregar uma participação intensa entre pulos eufóricos e cantorias generalizadas. Contudo, o que prevaleceu, interessantemente, foram os momentos de torpor contemplativo rompidos com o refrão e mantendo o calor intenso até a marca das 22h50, quando a apresentação chegou ao fim após 02h06 de duração e 17 canções.
O show do Iron Maiden, em retrospecto, foi uma aula de atuação musical. Como uma verdadeira peça teatral, a apresentação teve diversos e diferentes cenários, além de se apoiar na generosa troca de figurino por parte de Bruce Dickinson. Tal atitude, como de costume, ajudou na imersão do público no universo proposto em cada ato da performance do grupo inglês.
Com músicos entrosados e um poderio sonoro imponente, o Iron Maiden vivenciou algumas questões curiosas durante a sua performance. Primeiro, vem a participação do público. Do morno para o frio na maior parte do tempo, a temperatura da interação subia em momentos pontuais de espontaneidade ou com o auxílio do próprio cantor. É importante pontuar, porém, que, nesse aspecto, havia diferentes formas de entrega a depender do setor tratado.
Outra questão interessante é o que tange ao som. Inconsistente no que se refere à nitidez em meio à individualização de cada setor, sendo que a qualidade se diferiu de maneira consistente, por exemplo, entre o que a pista premium recebia e o que a pista comum e as cadeiras recebiam, que foi uma sonoridade majoritariamente abafada. Isso não foi mérito apenas do Iron Maiden. Na performance do Alter Bridge, a eventualidade também foi vivenciada, dando a ideia de má mixagem, como o peso da falta de torres extras de som espalhadas pelo estádio.
No que tange à iluminação, a mudança de tonalidade foi mínima durante o show do Iron Maiden. Dos tons místicos, o grupo também apostou em tons quentes amarelados que davam um viés expansivo e solar, brincando entre as ideias de mistério e vivacidade. Ainda assim, a enxutez de transição tonal foi suficiente para mudar o humor do público, que recebeu cada mudança com diferentes percepções sensoriais.
Aventurando-se em um repertório de clássicos carimbados, como The Number Of The Beast, The Trooper, Run To The Hills, Fear Of The Dark, Wasted Years, Phantom Of The Opera e Powerslave, por exemplo, o Iron Maiden soube montar um repertório focado naquilo que o público queria ouvir, mas pecou por não inserir ao menos um título proveniente de Senjutsu, seu álbum mais recente. Aos olhos gerais, felizmente isso não pesou na qualidade da performance.
Uma coisa que não dá para deixar de pontuar é a influência que Dawson, na sua ação de substituir Nicko McBrain, exerceu sobre a apresentação. Com postura mais rígida e golpes mais pesados, ele foi responsável por diminuir a cadência de algumas composições, como foi o caso, por exemplo, de The Number Of The Beast.
Eis aqui uma apresentação que, em conjunto, foi marcada pela pontualidade, mas também pela inconsistência na participação do público. Os cenários, as luzes e os esparsos diálogos de Dickinson até tentaram, mas não conseguiram deixar o show com cara de ovação generalizada. Para a cidade que mais os ouve no mundo, era esperada uma apresentação diferenciada e sem apoio ao padrão estrito, mas não houve sequer uma música diferente no repertório, seguindo, à risca, a mesma ordem vivida nas performances anteriores. O gosto de quero mais segue, assim como a expectativa pelo diferente.

