Tal como a representação sonora do crepúsculo nascente, a composição coloca o ouvinte imediatamente em contato com uma superfície macia, fresca e adornada por um dulçor estonteante. Combinando uma guitarra de riff aveludado em sua forma blues, um teclado de tonalidade graciosamente açucarada e ácida por representar a movimentação tradicional do hammond, além de uma levada rítmica pulsante e fluida, a faixa acaba, invariavelmente, transpirando gentileza, ternura e sensibilidade de uma forma irresistivelmente atraente.
A partir desse conjunto instrumental, uma série de contextos já surge como sugestões estruturais para o ouvinte, mas ainda sem sinais de uma certeza rígida. No instante em que o escopo lírico-interpretativo se inicia, o espectador fica em contato com a canção na sua formatação completa. Diante de um timbre masculino, afinado e rasgado, Chuck Royer fornece, perante a sua interpretação, inflexões verbais que se traduzem em melismas de indícios fortes do soul como a base de sua atuação.
Tornando a composição pungente e intensa no que tange ao aspecto puramente emocional, o cantor dá alma e razão de ser para o instrumental que sugere um quê de superação associado a contornos claros de redenção. Trazendo consigo provas claras de cristianismo na sua postura, Royer transforma a maciez bluesada em algo motivacional tocante e compassivo que representa toda e qualquer angústia vivenciada pelo ouvinte.
Mesmo sem sinal claro da presença do baixo e de sua consequente densidade, além de presenciar certo quê de linearidade rítmica, New Day ganha os holofotes por fundir blues, soul e o gospel, gênero indicado principalmente pela camada de backing vocal que engrandece generosamente a harmonia lírica, com uma intensidade lírico-interpretativa viciante. A verdadeira prova de que o frescor e a fragilidade podem oferecer conforto e significado às angústias do cotidiano.

