Christian Camilo - Mas Você Não Desistiu

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Depois de ter algumas canções lançadas em forma de single, um novo material encontra a luz. De nome Mas Você Não Desistiu, ele consiste no álbum de estreia de Christian Camilo, músico que, com ele, se apresenta ao mundo quase que de maneira estratégica durante o anunciar dos últimos meses do ano. 


Seu despertar é anunciado de forma mansa. Tal como se, de mãos dadas, caminhasse com o ouvinte perante um escampado em um ambiente rural banhado por um céu em processo poente, a obra fornece sensos de bem-estar acolhedores e frescos graças à maneira como a guitarra de Christian Camilo que, com sua distorção delicada e amaciada, tem uma textura tão confortável quanto um abraço terno. Ao mesmo tempo, o ouvinte acaba se deliciando com a união do frágil tilintar do pandeiro em contato direto com o riff levemente suspirante do violão, a qual se evidencia diante de uma sintonia criada com os pulsos firmes e secos do bumbo comandado por Felippe Pompeo. Com essa paisagem sônica, cheia de serenidade e singeleza, a canção amadurece gradativamente com o auxílio da voz firme, mas cuidadosa de Camilo. É com ela, inclusive, que o espectador vai acompanhando a construção de um enredo lírico que, claramente, conta a história de um indivíduo. Uma passagem por um instante de sua vida em que as metáforas fazem, da luz do sol, um reflexo de sua essência frágil. Vulnerável. Insegura. Agraciada por sutis, mas marcantes rompantes bojudos do baixo de Victor Mora, a obra ganha suficientes consistência e precisão para que o ouvinte sinta, na medida certa, as emoções transpassadas em cada palavra proferida.  Ao fundo, existe uma cama harmônica de extrema delicadeza que alcança, inclusive, nuances de um aroma perfumado e floral. Proveniente de um teclado que reproduz a sonoridade doce e ácida do hammond, ele dá, à canção, um toque extra de ternura, agraciada, acima de tudo, por um senso bem-vindo de compaixão. Meu Malibu, diante desse cenário, apresenta um personagem que aparenta estar perdido em meio à sua busca por si. Um indivíduo com um objetivo certo, mas sem o caminho correto para alcançá-lo. Ainda que pareça rumar ao autoconhecimento, ele se mostra não necessariamente preso ou enclausurado, mas optando pelo conforto daquilo de que já conhece. Das suas percepções íntimas já identificadas. Mesmo assim, a persistência se apresenta e o protagonista se vê na dualidade da insegurança e da coragem.


A maciez encontra uma nova forma de emergir. Perante um ecossistema folk tradicional, o qual se mostra perante uma arquitetura rítmico-melódica adoravelmente crua e acústica, essa nuance sensorial encontra a delicadeza do teclado em meio às suas notas de caráter doce cuidadosamente colocadas no cenário sonoro de maneira individual. Ganhando sutis doses de harmonia graças ao andamento lírico fornecido por Camilo, o qual, felizmente, é capaz de ofertar um feliz senso de movimento, é interessante observar como a faixa se utiliza dos pontuais ecos líricos oferecidos pelo backing vocal para, ao mesmo tempo, soar como um ingrediente onipresente e salientar certos contextos para dar, talvez, mais vida à dramaturgia da narrativa. Agraciada pela presença de uma guitarra tímida, mas de riff cuidadosamente aveludado, a faixa traz grande participação do baixo como elemento central de sua sonoridade, assim como os lampejos suspirantes sugeridos pelo teclado. Tal como se fosse uma espécie de ode à liberdade, Árvore se mostra uma obra que bebe da metalinguagem como forma de dar mais peso à sua mensagem em prol da resiliência. Aqui, especificamente, existe o relato de um personagem que se desvencilhou das amarras do sedutor mundo da depressão para encontrar, no novo dia, a força para continuar. Versos como “mas este é o seu lugar”, “este chão é o teu lugar!” e “hoje a noite tem luar!” fortalecem essa interpretação de forma sóbria e voraz.


Apoiada no uso do efeito fade in, a canção é anunciada de forma gradativa por entre os pulsos percussivos tilintantes em virtude do pandeiro. Ao lado de versos vocálicos de nuances onomatopeicas, é interessante perceber a construção de uma atmosfera envolvente capaz, até mesmo, de esboçar certos sorrisos. Graças à união sincrônica entre guitarra e violão, a maciez encontra certo quê de alegria envolto em pequenas doses de uma sensualidade ausente de qualquer menção propriamente sexual. De natureza curiosamente divertida, principalmente em virtude da forma como o cantor interpreta os versos verbais, os quais entram em perfeita sintonia para com a estrutura rítmico-melódica, De Verdade, Me Desculpa, ainda que seja a menor música da track list de Mas Você Não Desistiu em razão do tempo de execução, traz consigo uma mensagem de mesma natureza às demais até então apresentadas. Aqui, especialmente, o espectador é colocado diante da exploração da essência do personagem. De seus comportamentos e de como seus sentimentos afloram perante determinadas situações. O drama, a manipulação, o excesso de fragilidade, o egoísmo. A condescendência em seu ápice que reflete um completo vazio e desordem.


O sintetizador, em meio à sua solidão absoluta durante os momentos introdutórios imediatos da presente faixa, entrega à sua atmosfera uma mistura de torpor, dulçor e nuances penetrantemente transcendentais. O interessante é que essas sensorialidades acabam se fundindo com o restante do instrumental como se fossem um único elemento. Afinal, por mais que a bateria se movimente por entre golpes precisos em seu surdo ou o violão produza uma sonoridade fresca, tudo se encaixa dentro de uma categorização: o bucólico. Aqui, porém, o bucólico acaba sendo invadido por uma brisa esotérica e mística muito bem representada por uma paisagem crepuscular que transforma, gradativamente, o escuro estrelado da noite em um tom sereno e azulado que vem junto ao amanhecer. Agora, uma coisa que precisa ser pontuada é o fato de que tal introdução, propositadamente ou não, bebe da mesma estrutura utilizada no amanhecer de Pescador De Ilusões, single d’O Rappa. Aquém dessa breve semelhança, a presente faixa traz consigo um caráter interessantemente espirituoso que, apesar de dar indícios de esperança, se transforma em melancolia e introspecção ao primeiro sonar da voz de Camilo. Em virtude da interpretação lírica assumida por ele, a faixa acaba adquirindo um tom triste, introspectivo e quase lamentador. Entorpecente em sua máxima essência, Poeta Do Caos se evidencia como uma composição impiedosamente metafórica que se usa da ideia da atração física e libidinosa entre dois corpos para tratar de temas como intensidade, impulsividade e um vazio existencial travestido em autoconfiança. Aqui, existe o retrato da busca por aquilo que concede o senso de plenitude associado à percepção de propósito.


Existe uma sonoridade sintética pairando livremente pela paisagem, ainda que essa ainda esteja em seu processo de amadurecimento. Com delicadeza e toques de generosidade, essa melodia inicial, mesmo trazida pelo sintetizador, acaba, curiosamente, introduzindo toques épicos na atmosfera. Conforme a guitarra vai misturando o seu riff grave, no entanto, a canção vai perdendo um pouco seu brilho e sua luminosidade natural e passa a adquirir, gradativamente, uma paisagem não apenas sombria, mas melancólica e com nuances dramáticas. Na aparente tentativa de inserir detalhes amaciados e de inclinações sensuais, a bateria oferece uma levada rítmica branda e envolvente que, invariavelmente, acaba dando à composição uma dose de torpor bastante sedutora. Flertando levemente com a new wave em virtude da natureza da sonoridade sintética insistente e repetitiva, a faixa, incontestavelmente, é envolvida por brisas que trazem consigo pitadas equilibradas de melancolia, reflexão e desalento. De interpretação lírica crua e de emoções que beiram um pouco a desesperança e uma postura que aparenta o enfrentamento de uma realidade desgostosa, Você Me Fez é outra faixa em que Camilo brinca com a metáfora ao deslizar por assuntos delicados inerentes à psicologia do indivíduo. Aqui, enquanto o personagem lida com a nostalgia, a melancolia e a dificuldade de se ver no centro de um processo marcante de amadurecimento, ele lembra, lamenta e sofre por aqueles momentos de pura leveza, descompromisso e despreocupação. Tenta buscar, nesses instantes em que nada é corruptivo, a lealdade de uma pessoa para com a sua própria essência. A confiabilidade. A leveza, a bondade. A citação de sobriedade e o verso “tome o teu lugar!” simplesmente escancaram a fuga do protagonista em lidar com o presente, algo que, felizmente, ele alcança ao final desse enredo chamado Você Me Fez.


Um novo som surge em cena. Uma cara nova. Uma textura inédita tão viva quanto o próprio sol surgindo além da silhueta das montanhas durante o amanhecer. Com sua doçura levemente ácida e sua identidade autêntica, excêntrica e capaz de evocar o regional, a gaita abrilhanta não apenas o escopo melódico, mas, essencial e especialmente, o âmbito harmônico da presente composição. De pronúncias suspirantes, mas não envoltas em súbitos sensos de melancolia ou tristeza, o instrumento vem adornado, sim, pela introspecção. Conforme o violão vai se unindo de maneira gentil com delicadas inserções percussivas, a canção vai conseguindo ofertar vislumbres rítmicos que auxiliam o ouvinte na identificação de seu compasso. Com grande participação do baixo por entre seu andamento suavemente trotante, a faixa, no instante em que tem seu escopo lírico posto em construção, coloca o ouvinte em contato com a delicadeza e com uma espécie de nostalgia emocionante que traz as lágrimas graças ao auxílio do sonar do hammond novamente introduzido pelo teclado. Intimista em sua máxima essência, O Que Valeu Tua Vida!, em meio aos seus breves sabores espirituosos e rimas que auxiliam na assimilação do conteúdo verbal, dialoga sobre o processo da independência, do crescer. Porém, o ponto alto está no aparente ponto de vista daquele que fica. Daquele que, mesmo feliz pelo processo ao qual o outro se entrega, se envolve em receio, insegurança. Saudade. É como uma mãe observando seu filho alçando voos para o mundo desconhecido. Para a vida que o aguarda do lado de fora das paredes do lar.


Antes de qualquer coisa, é interessante perceber como Camilo usa o baixo como um importante elemento na construção sonora de suas canções. Mantendo esse viés, o instrumento se apresenta com o devido destaque em meio à desenvoltura serena do violão. Com seu dulçor e frescor, o referido elemento torna a composição macia e envolvente. Quase terna. Enquanto isso, o ouvinte se perde em meio à embriaguez de nuances místicas que o sintetizador oferece na região da base melódica. Ainda que de natureza sintética, a sonoridade dele extraída traz um quê de intimismo associado a uma espécie de conexão com o íntimo, ou seja, promove um orgânico movimento introspectivo no espectador. Nesse ínterim, o cantor é ouvido por entre versos curtos, vocálicos e que beiram a onomatopeia. Entre sons semelhantes a uivos e latidos secos, o cantor acaba transformando a obra em um universo nativo. Tal como se estivesse saudando a natureza ou, ainda, a vida em sua abundância, o vocalista, invariavelmente, ainda mais com o contato da singeleza cristalina da guitarra, faz de Sobreviver uma carta ao viver cheia de gratidão. Aromática e frágil, a canção, ao promover o contato da audiência com seu enredo lírico, promove um tipo de contrassenso. Um leve titubear que beira a confusão. Afinal, o instrumental lança uma energia diferente daquela dos verbos proferidos. Ao mesmo tempo, porém, conforme o ouvinte dá a chance para que o enredo se desenvolva, fica claro que o instrumental guarda, em si, a chave da história de Sobreviver. Um homem perdido na vida, sem rumo. Sem alma ou personalidade. Um personagem que, tal como a estrutura rítmico-melódica, busca pela motivação e pela gratidão à vida.


O som ambiente daquilo que parece ser motores cortando as barreiras do vento é percebido, mas com notável sutileza, fornecendo um breve despertar sensorial no espectador. Rapidamente, porém, a canção já se apresenta em sua forma madura, mesmo que ainda esteja fornecendo o despertar de sua introdução. Com um baixo de groove precisamente pontual fornecendo uma estética melódica precisa ao lado de uma bateria que, com sua postura macia, oferece agradáveis noções de fluidez, a base estrutural da obra, construída por Felippe Pompeo, já vem agraciada por uma coesão notável. Ao mesmo tempo, é necessário pontuar que a simetria existente entre o violão e a guitarra, fornecidos, respectivamente, por Camilo e Leandro Publio, arregimenta uma espécie de frescor delicadamente melancólico. Tal como se estivesse de joelhos em uma pose de reverência saudosa perante um céu azul límpido, a canção propõe um intrigante senso de gratidão que surge de maneira enigmática na atmosfera. É nesse momento que a obra é agraciada pelo despertar de seu enredo lírico. Desenhado por uma voz masculina de timbre sereno em meio ao seu toque delicadamente agridoce vindo de Camilo, ele adquire um senso introspectivo ao mesmo tempo em que incita a nostalgia. Conforme se desenvolve, a faixa acaba ganhando contornos levemente dramáticos provenientes das notas no entremeio entre o grave e o agudo trazidas pelo piano. Agraciada, a partir daí, uma harmonia simples, mas tocante, a canção assume uma crescente em que o cenário dramatúrgico é embebido em um choque visceral adornado por lágrimas inestancáveis. Sendo até mesmo severa em sua forma homenageante, Raio Amarelo não é apenas um hino. É como a junção do sofrimento, da dor e das lágrimas represadas de todos os brasileiros, agora órfãos de um verdadeiro ídolo automobilístico. Mas não somente. Por meio daquela fatídica tarde, os brasileiros ficaram carentes de uma imagem que lhes transmitisse coragem, fé e determinação. Sua morte chocou a todos, mas Ayrton Senna, através da melodia de Raio Amarelo, continua presente na memória de cada indivíduo. A cada traço do Sol cortando o céu. A cada brisa que banha o seio da face. A cada onda que arrebenta no mar, será possível te sentir. Raio Amarelo é, a você, Senna, uma carta de gratidão que te reverencia.


Não é que necessariamente a presente faixa tenha seu início marcado pela adoção do efeito fade in, mas a sonoridade de seu amanhecer é introduzida de forma gradativa a tal ponto que encapsula a mesma ideia. O que chama a atenção, porém, é que, entre os dois violões que preenchem a melodia, aquele que executa a função de solo acaba adotando uma postura lamentosa em cujos contorceres de suas cordas soam como pulsos de dores lancinantes no peito. Não é à toa que, enquanto Camilo esboça um verso onomatopeico, um backing vocal transforma o ecossistema em algo transcendental e espirituoso pela forma gutural com que pronuncia as vogais entre ecos. Surpreendentemente, a maneira como o vocalista dá vida ao enredo lírico propriamente dito é respaldada por certa intensidade e cadência levemente acelerada que dá, ao ouvinte, a oportunidade de conviver com uma energia até então inexistente. Com uma breve excitação e uma singela menção de ânimo, o espectador se vê guiado pelos pulsos tilintantes do pandeiro e embriagados por audaciosos versos agora lexicalmente onomatopaicos. Ainda que transpire traços de uma melancolia não pegajosa, Aquela Da Cachorrinha impressiona pelo retrato consciente em relação a um relacionamento doentio. Cheia de metáforas, a composição trata da ausência de liberdade e de independência em razão da ampla carência sofrida pela outra metade da relação. Carência essa que barra a autoestima e a identidade daquele que, ao menos, ainda pensa existir amor nesse contexto doentio.


A união do teclado, os pulsos da bateria e o andamento melódico do violão dá à composição não apenas um teor dramático, mas especialmente melancólico. Quase como se conseguisse representar a energia do Natal, sua atmosfera é regida por uma introspecção entorpecente e pungente. Por meio de sua estrutura rítmico-melódica que, pouco a pouco, se mostra linear, a obra acaba explorando uma sensibilidade nostálgica cheia de intensidade e, claro, memórias. Memórias essas que fazem de Naquela Rua um retrato emotivo e gratificante sobre a infância e tudo aquilo que a fazia de especial. Os amigos, o futebol improvisado. O grito da mãe. Um amor juvenil. Ou, até, uma simples árvore que marcou a paisagem urbana com resquícios de um verde natural. O interessante é perceber que a faixa, em sua máxima essência, é um retrato pertinente entre expectativa e realidade. A ilustração de como o torpor de bem-estar pode ser bruscamente rompido com acontecimentos que, vez ou outra, chamam para o mundo real.


Não que a faixa seja especificamente entorpecente, mas a maneira como a guitarra é colocada em cena, por entre riffs distorcidos expostos de forma ondulante, faz com que a atmosfera seja tomada por brisas psicodélicas, as quais são incentivadas pela levada rítmica levemente ecoante. É interessante perceber que, nesse contexto, não apenas o personagem se encontra em angústia como o próprio ouvinte é capturado por essa intensidade sensorial. Entre a fragilidade e a evidente falta de brilho, de vivacidade, de motivação, a história de Tomado Por Estrelas ganha uma virada assim que Du Miranda, com seu timbre intermediário levemente nasal, assume a narrativa. Dali em diante, a melancolia, a dor lancinante e a zona de conforto das sombras dá lugar à necessidade de ar, de brilho. De reviver e dar uma nova chance à vida através do brilho das estrelas.


Delicada e curiosamente divertida em virtude da maneira como o violão se combina com sonares tilintantes e pandeirescos, a faixa, tão logo se inicia, envolve o ouvinte em meio a um delicado frescor e uma deliciosa maciez de nuances fluidas. Diante de uma estrutura linear e minimalista, o ouvinte tem total liberdade de se atentar estritamente a tudo aquilo que Camilo oferece. É então que se percebe a verdadeira natureza da canção. Não. Ela não é uma obra fúnebre, melancólica. Ela é um poema em forma de gratidão. Uma reverência. Uma homenagem. Uma fala de amor dita em forma de canto. Minha Teresa é uma carta de amor muito bem interpretada por Camilo à figura da avó de sua namorada, uma vez que a letra é, por ela, assinada. Cheia de menções de carinho, retratos de reciprocidade e cumplicidade, a faixa escancara aquele amor incondicional que não oferece palavras para ser devidamente descrito. O que mais marca a história de Minha Teresa não são as citações sensoriais e as descrições cheias de nostalgia, mas, sim, o relato da resiliência e da positividade do uso da vida. Mais do que o cheiro de amendoim ou o carinho no rosto ao acordar, é nítido que o maior legado deixado pela “minha Teresa véia” é o não desistir da vida e a deposição de novas chances de ser positivamente surpreendida pelo destino. Tudo isso agraciado pelo toque sensível e profundo que Camilo é capaz de dar em meio à sua forma de interpretar musicalmente um poema tão íntimo.


Pode se dizer que ele tem a forma de um diário. Um diário em que cada palavra, emoção e sentimento foi cuidadosamente transformado em som, em melodia, em poema musicado. E como em um diário, tudo é colocado com a mais pura honestidade. Uma sinceridade que chega a chocar em virtude de sua natureza cirúrgica de seus próprios retratos. Mas Você Não Desistiu surge, portanto, como uma audaciosa proposta de fusão da funcionalidade do diário com a profundidade e a quietude de um monólogo.


Ainda que não seja um material envolto em brilhantismos mirabolantes, o material faz de sua estrutura rítmico-melódica algo simples, mas não vazio e sem alma. Afinal, dentro de cada suspiro do violão, cada olhar de preocupação do baixo, cada sobrevoo atento do sintetizador ou cada passo cuidadoso da bateria, o ouvinte é colocado em contato com situações da vida real. Situações em que as emoções conflitam com aquilo que é lógico e racional. 


Nesse sentido, de fato é de chamar a atenção a coragem, o desprendimento e a intensidade com que Christian Camilo se disseca. Às vezes, é por meio de facadas lancinantes. Em outros momentos, é com base na ternura e na delicadeza. É inegável, portanto, que o processo de autoconhecimento seja um caminho tranquilo, sem desafios ou desamores. Claramente, Camilo mostrou ter consciência disso.


Isso porque, em meio à sua própria busca por si, pela sua identidade, a sua essência, a sua personalidade e a sua história, o cantor lida com questões de aparências mais frívolas àquelas de texturas mais ásperas. Ainda que o peso de cada experiência é pessoal e variável, independe se é com leveza ou brutalidade. Todo o processo vivido por Camilo nessa busca é muito bem retratado em Mas Você Não Desistiu.


Misturando o dramático, o pungente e o visceral com o frágil, o vulnerável, o aromático, e o fresco, o cantor se usa do bucólico para tratar de questões inerentes à independência, ao amadurecimento, ao amor, ao senso de pertencimento e ao vazio existencial. Tudo por meio de uma paisagem sônica essencialmente acústica e envolta no universo do folk com ligeiras incursões de new wave em sua paisagem sônica.


Nesse sentido, é importante destacar a atuação de Pompeo. Muito além de trabalhar no front, o profissional também se responsabiliza nas questões técnicas da mixagem e produção. De um lado, sua sensibilidade lhe permitiu oferecer um som cristalino em que cada elemento instrumental pode ser percebido individual ou coletivamente. 


Com certa audácia na valorização do baixo, cada universo é abraçado por singelas brisas de melancolia de forma a defender a energia central do álbum. Já no que tange a produção, o músico foi de grande valia na exploração dos sentimentos através do som. Surpreendentemente, ele promoveu uma narrativa sequencial que prende o ouvinte do começo ao fim.


Encerrando a parte técnica, vem a arte de capa. Assinada também por Camilo, ela consiste na imagem de uma árvore seca ao lado de outras duas com folhagens verdes. A ideia que se tem, de primeiro momento, é de um filho sendo respaldado pelos cuidados dos pais. De outro lado, a menção da secura de uma e das folhagens das outras permite a obtenção da interpretação de que é possível recomeçar, se não desistir. É a perfeita representação de resiliência.


Lançado em 07 de outubro de 2025 de maneira independente, Mas Você Não Desistiu é como o circuito de emoção e racionalidade escancarado. Exposto. Destrinchado. É um relato cirúrgico de um indivíduo em processo do descobrimento de si, das suas naturezas e comportamentos. Um álbum que destaca as sombras, a melancolia, a falta de brilho, mas que, gradativamente, vai ganhando força e ânimo até encontrar a sua ressurreição através do amor, da saudade e da gratidão. Eis aqui a trajetória do funesto à vida.

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Sobre o crítico musical

Diego Pinheiro

Quase que despretensiosamente, começou a escrever críticas sobre músicas. 


Apaixonado e estudioso do Rock, transita pelos diversos gêneros musicais com muita versatilidade.


Requisitado por grandes gravadoras como Warner Music, Som Livre e Sony Music, Diego Pinheiro também iniciou carreira internacional escrevendo sobre bandas estrangeiras.