UmQuarto - Fora Do Lugar

NOTA DO CRÍTICO
Nota do Público 5 (2 Votos)

Foram dois anos desde o anúncio de O Meio Do Caminho, seu álbum anterior. Dois singles cuidadosamente escolhidos para introduzi-lo ao mundo da música. E assim veio à luz Fora Do Lugar, o terceiro álbum de estúdio dos florianopolitanos do UmQuarto. Material foi gravado inteiramente ao vivo, ausente do auxílio do click track e do metrônomo. 


Pode até parecer que existe um toque de esquizofrenia perante a forma como o escopo instrumental se comporta perante a desenvoltura do processo introdutório da obra, o que, de fato, é interessante. Em verdade, porém, a combinação de uma levada rítmica sincopada e quebrada da bateria de Rafa Nogueira com um alicerce harmônico-melódico sincrônico entre o sonar adocicadamente ácido do hammond representado pelo teclado de Bernardo Flesch e o riff levemente azedo da guitarra de Rafael Salib confere ao ecossistema uma tomada que flerta diretamente com a psicodelia. Com uma cristalina influência do Deep Purple em sua estrutura, a canção não se permite esconder as suas inclinações estruturais para com uma paisagem cenográfico-sônica nordestina. Viciante e entorpecente diante de seu desenho sonoro brevemente linear, a canção, com sua duração impressionantemente superando a marca dos sete minutos, compreende, ainda, uma fusão com o progressivo que torna a sua sonoridade ainda mais complexa. Afinal, enquanto o ouvinte se entorpece com o seu hipnotismo sônico linear, a canção surpreende ao romper com essa singela mesmice e levar o espectador para um audacioso ecossistema introspectivo de instrumental brando, calmo e tranquilo. Não há somente melancolia nesse trecho. Há, especialmente, uma brisa nostálgica que prende o ouvinte de maneira maciça em meio ao seu ambiente quase alucinante. Lembrando brevemente a arquitetura melódica dos versos de ar de Dream On, single do Aerosmith, esse instante sonoro-narrativo acaba sendo generosamente respaldado por uma boa dose de dramaticidade, mas a tal ponto que não chega a ser necessariamente pungente. Quando o enredo lírico finalmente começa a ganhar vida, o que acontece assim que a voz de timbre agradavelmente grave de Mayer Soares surge em meio ao escopo sonoro, a canção acaba ganhando uma emoção mais palpável. Por meio de sua interpretação verbal, a obra acaba mergulhando em um universo ainda mais introspectivo e melancólico que ganha doses de um sofrimento curiosamente terno por meio do sereno dulçor do sonar do piano. Por entre rompantes de groove secos vindos de um baixo que, finalmente, entrega consistência ao escopo conjuntural da composição, o ouvinte consegue, enfim, identificar a natureza da mensagem difundida pelo escopo verbal. Eis que Eterno, Enquanto Quase explora as duas faces do amor: o prazer associado ao êxtase de bem-estar e a dor. É o desamor como resposta à decepção falando mais alto e bloqueando todo o sentimentalismo puro e sincero do personagem-lírico, um indivíduo agora frio pela frustração e tomado pelo medo do amor. Da paixão.


Um suspiro. Uma brisa fresca é o que parece receber o ouvinte perante a nova paisagem que se anuncia. Rapidamente, porém, essa prematura delicadeza se transforma em pulsos rítmico-harmônico-melódico uníssonos que informam, invariavelmente, um mergulho sônico no campo do hard rock. A sensualidade e o provocativo acabam sendo detalhes sensoriais muito bem explorados pelo sonar adocicado do teclado e pelo riff aveludadamente bluesado da guitarra. Estruturalmente sincopada e sensorialmente irresistível, a faixa chama a atenção por, conforme amadurece a sua estrutura, alçar voos ousados perante a cenografia do soul, algo que se percebe, principalmente, pela atuação lírico-interpretativa assumida pelo vocalista. Difícil para o ouvinte, portanto, não localizar, aqui, influências sofridas da figura icônica de Tim Maia. Entorpecente, mas ao mesmo tempo vibrante, O Roxo E O Verde guarda um conteúdo lírico não dúbio ou ambíguo, mas que, definitivamente, pode proporcionar dois caminhos interpretativos. Enquanto, de um lado, pode se ver um diálogo sobre a liberdade e a vivacidade como sentido curioso de gratidão, pode-se entender que a canção também trata, aparentemente, da realidade do vício vivenciado pela comunidade jovem. E, nesse sentido, o protagonista mostra a sua consciência ao ponto de conseguir se desviar desse caminho e seguir pelo rumo da saudabilidade e da gana pela vida em sua forma pura.


A delicadeza invade o cenário com a adesão de um aroma perfumado suavemente espalhado por uma brisa trazida de um horizonte de céu brando. Não necessariamente que a interação branda existente entre bateria e guitarra surte em um súbito de torpor, mas é inevitável que o senso de aconchego capture a sensorialidade do espectador. Mesmo diante dos rompantes bojudos do baixo, a faixa ainda ousa em não apenas construir, mas enaltecer um toque nostálgico a partir do dulçor cuidadoso do piano na camada harmônica. E o interessante é perceber que não existe uma espécie de ápice ou um contentamento consensual em relação às texturas exploradas. Afinal, em meio ao dulçor existe o veludo. E do veludo, sem qualquer tipo de cerimônia, a composição encaminha o ouvinte para um cenário áspero, mas, simultaneamente, hipnótico, em razão da natureza da distorção adotada pela guitarra nesse processo. Se tornando inquestionavelmente embriagante em razão do fato de destacar a natureza linear de seu escopo estético estrutural, Dois Iguais salta aos ouvidos do espectador por conta de seu lirismo entoado em uníssono pelos três ditos cantores do UmQuarto, ou seja, Mayer, Salib e Flesh. Inclusive, é o grau de intensidade e a cadência lírica adotada pelos cantores que dá, à canção, sensos agradáveis de fluidez e movimento. Inclusive, é uma felicidade perceber que o refrão, ainda que curto, seja capaz de oferecer uma quebra rítmica que desperta uma vez mais o interesse da audiência no conteúdo sonoro que a obra oferece. Isso tudo acompanha Dois Iguais brinca com a realidade de vida de irmãos gêmeos. Misturando nuances de comicidade em um enredo com superfície divertida e engraçada, a canção traz a sagacidade do grupo em se aproveitar disso para, nas entrelinhas, inserir a sua verdadeira intensão. Aqui, ela se centra na discussão não apenas sobre identidade, mas, sim, sobre individualidade. As aparências podem ser as mesmas, mas a natureza comportamental muda, assim como a luz do sol transforma o místico tom do luar em um eclipse. Um mais um, de fato, não são dois. São muitos mundos dentro de um só universo.


Seu início já é provocante. Até é capaz de dizer que ele tem um viés cinemático. Seu compasso rítmico levemente trotante leva o ouvinte a um ambiente não necessariamente inóspito, mas bucólico. E nesse ambiente, a junção do sonar seco e sincopado do chimbal com o cinismo brevemente debochado do baixo oferece vislumbres de um suspense viciante. Quando Flesch entra em cena com seu timbre grave e firme, se percebe a existência de uma densidade. De uma espécie de tensão pairando pelo ar. Não que necessariamente ela traz a tempestade, mas, definitivamente, ela desmonta a utopia de um céu azul-anil. A partir daí, existe um tom ousado no que tange as narrativas líricas do Fora Do Lugar até o momento, porque a presente locução beira o cético. Um logicismo emaranhado por um mais audacioso ainda toque de decepção. Não é de se espantar que até mesmo a guitarra acaba assumindo um comportamento dissonante, uma atitude sinérgica que entra em associação com esse campo sensorial passado pela vivência do conteúdo verbal. O interessante é que, quanto mais se desenvolve, mais a obra vai sendo agraciada por novos campos sensoriais. Com o auxílio do pulso firme do bumbo e pela agora guitarra suspirante, uma ideia de nostalgia envolta em melancolia é difundida pelas frestas de luz natural que tentam rasgar a ternura monocromaticamente cinza da verdadeira identidade do horizonte. Ao ecoar do refrão é que Ídolo Vazio explode em uma dramaticidade inquebrantável e comovente, expondo as feridas e as lágrimas daquele que parece ser um indivíduo incompreendido. Diante desse arranjo, o que acontece é uma ira travestida de consciência. Uma raiva fantasiada de ternura. Pode até parecer que, na faixa, o UmQuarto assuma uma postura mansa, mas, em verdade, cada palavra que preenche o enredo de tal composição desmascara a sua aparente decência e mostra que, mesmo os homens bons, sucumbem à decepção e ao senso de desesperança. Ídolo Vazio é pura e simplesmente o duro ponto de vista da cegueira coletiva perante um falso Deus. O verdadeiro sintoma da carência e da desesperadora necessidade de representatividade. De salvação. De alguém que acolhe, que enfrenta. Que protege. Eis aqui o retrato de um Brasil vulnerável e completamente solitário. Órfão de uma figura que inspire admiração e coragem.


É quase um movimento necessário. Afinal, após a tormenta, vem a calmaria. E assim é Sobre O Voo. Com toda a sua mansidão, frescor e textura de veludo cuidadosamente puxada por um dedilhar introspectivo assumido pelo violão, a composição consegue envolver e entorpecer o espectador em um agradável senso de conforto e aconchego. Ainda assim, é necessário pontuar que, aqui, não existe dulçor. Ainda que macia, a estrutura minimalista da canção transpira uma reflexão curiosamente envolta em brisas melancólicas. Por entre sobreposições vocais que tornam a linha lírica transcendental e ecoante, Mayer se apresenta caminhando por entre uma percussão quebrada e trotante, mas que não desvia a canção de sua essência branda. Diante de uma dramaticidade a ponto de beirar o esoterismo, Sobre O Voo se mostra como um poema musicado não apenas sobre pertencimento, mas sobre a ideia de amadurecimento. De viver a vida e desvendar seus mistérios longe daquele porto-seguro pré-púbere. O primeiro voo dá medo, mas, tal como o eu-lírico, a vastidão do mundo, ao encantar os olhos, faz o coração bater mais forte e pedir por essa liberdade insaciável chamada maturidade.


Para começo de conversa, é interessante a forma como se é explorada a textura ácida e o sabor do azedo através do riff da guitarra que domina o escopo introdutório da composição. Ao lado dos pulsos crus da bateria, ele, junto com o auxílio do sintetizador, chega criar uma atmosfera que beira, propositadamente, o dissonante. E é justamente a partir daí que o ouvinte percebe um movimento comportamental que se inclina perante o caos e perante flertes em relação a posturas mais associadas à esquizofrenia. Diante desse ecossistema, mesmo ainda se vendo ausente da companhia de um conteúdo lírico no qual se apoiar, o ouvinte já é capaz de se ver em um ambiente urbano, noturno e marginal. É quase como se estivesse caminhando pelo que o senso comum chama e escória da sociedade. Não é de se espantar, portanto, que, quando a construção lírica se anuncia, a canção seja capturada por uma intensidade que beira um toque de insanidade. Graças à interpretação verbal assumida por Salib, o espectador se liberta do torpor enaltecido pelo escopo rítmico-melódico linear e se atenta unicamente na cadência lírica por ele construída. Com uma sonoridade conjuntural bruta e crua no sentido de uma proposital ausência de lapidação, Farinha Lima é uma canção que se usa de uma mistura estrutural que permeia as cenografias sônicas do synth-pop e do stoner rock para trazer uma espécie de desconforto e chamar o ouvinte para um conteúdo verbal socialmente crítico, mas adornado por um poema que guarda tanto um rechaço quanto uma repulsa da hipocrisia. Isso porque Farinha Lima trata simplesmente do consumo da cocaína não pelo marginal, mas pelo indivíduo engomado, que passa por boa gente, sempre correto e acobertado pela lei.


Ela já nasce sob uma silhueta empolgante, expansiva e convidativa. De estrutura rítmico-melódica fluida e levemente sensual, a canção fornece uma sonoridade que, além de muito rememorar os áureos tempos do rock brasileiro oitentista, se mostra perante uma base blues que chega a até mesmo ser dançante. De Barão Vermelho à Rita Lee, as referências voam solta nesse ecossistema quase desvairado, mas profundamente agradável e completamente aberto. No entanto, é importante destacar que, dentro desse tom de alegria, a faixa acaba transpirando inclinações melancólicas surpreendentes que entorpecem o ouvinte ao mesmo tempo em que o intrigam. Fui De All-Star é, talvez, a primeira canção de caráter puramente leve de Fora Do Lugar. Como uma canção de amor, o romance está no ar. E dentro desse universo, existe o sacrifício que prova o quanto de carinho existe pela outra pessoa que completa a metade ausente. 


De começo, a forma como a bateria se movimenta por entre frases percussivas pulsantes dá a entender que a canção é regida por uma base rítmica calcada no jazz. No entanto, quando o baixo entra em cena e o viés lírico começa a ser vivido, se percebe, também, uma curiosa mistura com o nordestino, com foco específico no baião, que é, de certa forma, uma marca da sonoridade do UmQuarto. A partir daí, é interessante notar o caminho sensorial da composição, que agora se mostra curiosamente melancólico e lamentoso, mas, felizmente, ausente de um caráter pegajoso. Trabalhada de forma a explorar paisagens sônicas associadas com um hard rock progressivo ao modo típico de Burn, single do Deep Purple, a canção, a partir de certo ponto de seus mais de 11 minutos de duração, destaca uma camada harmônica marcante construída pela presença do sonar do hammond de forma a entregar mais força e potência à paisagem sônica. Agraciada também por momentos de uma calmaria extasiante que flerta com a estrutura presente na ponte de Burn It Down, single do Alter Bridge, a faixa-título acaba se enveredando por frases suspirantes, enquanto oferece momentos de pura influência de nomes como Barão Vermelho. Com direito a um surpreendente solo de guitarra lexicalmente dissonante e propositadamente desarmônico, a faixa-título se encerra com uma base sonora progressivo-psicodélica enquanto destaca um enredo lírico cheio de referências. Indo de explícitas, como o caso do personagem Harry Potter, à figura que metaforiza a imagem condescendente e explosiva de Axl Rose, a canção ainda cita Machado de Assis ao passo que serve como um retrato puro, cru, visceral e orgânico do processo criativo do UmQuarto.


É possível dizer, com precisão, que o presente material, tal como seu anterior, mostra um amadurecimento musical por parte do UmQuarto. Isso não significa que, aqui, existam experimentações, malabarismos e virtuosismos sonoros. Para uns, isso pode ser bom por mostrar a defesa de uma identidade sônica bem formada. Para outros, pode ser ruim por mostrar uma aparente ideia de insegurança e de comodismo. Em verdade, porém, Fora Do Lugar se consagra como um álbum que atesta, sim, a irreverência, a autonomia e a excentricidade do grupo florianopolitano.


Uma vez mais, o grupo se mostra confiante e maduro perante a construção de ecossistemas rítmico-melódicos diversos. Mas, definitivamente, o que chama a atenção no escopo que permeia o trabalho do grupo - e especificamente, o presente álbum - é o fato de que todas as composições, sem exceção, são poemas que ganham vida não apenas através da interpretação lírica de atores da música, mas, também, pelo som. Pela sensibilidade e pela identidade de cada instrumento.


É a partir daí que o ouvinte se perde entre o conforto, o êxtase, a melancolia. Se perde por entre posturas ora introspectivas e ora expansivas. Mergulha em enredos verbais profundos, os quais, de maneira inteligente, podem ter duas caras, brincando com a visão de mundo e a intuição de cada indivíduo que se aventurar a interpretá-los, como é o caso da blues-soul O Roxo E O Verde.


Ainda assim, existem assuntos que não oferecem duas chances de interpretação. O amor e o relacionamento são bastante trabalhados em Fora De Lugar, assim como questões inerentes à busca e à defesa de identidade; noções associadas ao senso de pertencimento e inclinações para com o processo do amadurecimento. Há, também, temáticas mais profundas que pedem maior atenção, como a discussão da ausência de uma figura nacional que inspire respeito consensual e que ofereça representatividade. Como a hipocrisia social em assumir uma cegueira autoimposta em relação ao rico adicto. 


Para que tudo isso receba, musicalmente, o peso e a densidade ideais, o UmQuarto contou, uma vez mais, com a figura de Soares. Afrente dos dois mundos, o técnico e o artístico, o músico formou um trabalho de mixagem bem feito, enaltecendo cada instrumento em sua individualidade e destacando seu peso perante o coletivo. Por meio dessa atuação, o blues, o jazz, o hard rock, baião, o rock psicodélico e brisas com o stoner rock são facilmente identificadas no decorrer dos oito títulos de Fora Do Lugar.


Já no que se trata de produção, Felippe Pompeo assume o trabalho. Tal como um maestro regendo uma orquestra, Pompeo serviu como um quinto elemento do UmQuarto. Indicando caminhos mais certos e incentivando o grupo no lado artístico, o profissional conseguiu tirar, da banda, um conteúdo cru e completamente sincero.


Fechando o escopo técnico, vem a arte de capa. Construída em união entre Manu D’Eça e Josi Santos, ela se trata, simplesmente, em um mosaico feito a partir do rosto dos quatro músicos que regem o grupo. E o resultado é simplesmente alucinógeno-psicodélico a nível Lewis Carrol. Uma forma ousada de comunicar, artisticamente, que todos os integrantes contribuem ativamente nas construções sônicas do grupo.


Lançado em 28 de outubro de 2025 de maneira independente, Fora Do Lugar é um disco, no mínimo, sensorial. Um material capaz de abrir portas que dão acesso a pensamentos mais abrangentes. A novas ideias. Um produto que, por tirar o ouvinte da zona de conforto, soa, definitivamente, como algo fora da caixa. Algo imponente, cheio de opinião e que brinca com a visão de mundo do ouvinte por meio de uma experimentação sônica audaciosa. Ah sim, e parafraseando o próprio Soares em seu verso debochado e provocativo que encerra a faixa-título: não tem IA.

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Sobre o crítico musical

Diego Pinheiro

Quase que despretensiosamente, começou a escrever críticas sobre músicas. 


Apaixonado e estudioso do Rock, transita pelos diversos gêneros musicais com muita versatilidade.


Requisitado por grandes gravadoras como Warner Music, Som Livre e Sony Music, Diego Pinheiro também iniciou carreira internacional escrevendo sobre bandas estrangeiras.