Diretamente de Pernambuco, mais precisamente da cidade de Belo Jardim, um novo nome surge no cenário brasileiro de música independente. O Virgulados, com 10 anos de estrada, enfim se anuncia na cena, de forma oficial, com O Trem De Belo Jardim (Ato 1), um álbum dividido em três atos que, agora, tem seu primeiro capítulo divulgado.
Seu despertar já chega a produzir frissons no espectador em virtude da combinação de vozes graves, mas adornadas por um adorável sotaque regional. Com esse coro, que por vezes chega a soar até mesmo de maneira fantasmagórica, mas sem causar estranheza ou tensão, a composição se vê na liberdade de deixar escapar o nascimento de seu escopo instrumental. A partir do compasso tilintante do encontro das baquetas de Heligeison Feitosa delimitando o andamento rítmico, um rompante bojudo e encorpado vindo do baixo de Gledson Lamartine se pronuncia, permitindo, assim, o encontro do instrumental, em sua forma completa, com a linha lírica. Nesse instante, a canção mergulha em uma espécie de sensualidade azeda desenhada principalmente através da união da bateria com a guitarra de Eduardo Albuquerque. É ela que, inclusive, serve de cama para que uma camada lírica crua, de caráter não narrativo, mas falado, encapsulando sua essência muito além do improviso, mas capturando a espontaneidade de um simples diálogo. Daí em diante é que o lirismo propriamente dito da composição se inicia. Depois dessa introdução crua e lexicalmente ambiente, David Biriguy, com seu timbre afinado, com base levemente grave, mas aparência levemente adocicada, vai desenhando uma cadência sincopada capaz de envolver o espectador em sua maciez contagiante. O interessante, nesse ínterim, é perceber a versatilidade de Feitosa, que fornece, diante de seu envolvimento percussivo, uma levada que mistura características de vão do baião ao manguebeat, passando até mesmo por nuances do coco, promovendo um senso de fluidez penetrante. Mas não é só nisso que a faixa-título chama a atenção. Ela é pincelada por versos líricos cuja forma encarna os coros típicos dos cânticos candombleseiros, evidenciando, assim, a força da espiritualidade presente também no escopo musical. Com essa atmosfera contagiante, a obra fornece uma narrativa que enaltece a figura do Virgulados como uma personalidade a arrebatar a atenção de todos de Belo Jardim. A partir daí, é difícil não se lembrar de outros nomes que compuseram títulos com o mesmo viés auto-propagandista. Tihuana, com Tropa De Elite, Charlie Brown Jr. com O Coro Vai Comer, Detonautas com Tênis Roque, apenas para citar alguns. Ainda assim, o arranjo faz da presente obra, uma cantiga popular de Belo Jardim assinada por Zé Bernardo e originalmente interpretada por Zefinha de Bernardo, um conteúdo autêntico cheio de identidade e sangue regional.
A sensualidade invade a cena com notável consistência. Respaldada por um groove enfático e incisivo vindo do baixo em companhia sintônica com a bateria, a canção já escancara a influência de nomes como Chico Science e até mesmo Lenine em sua estrutura. O interessante é destacar a proposta da obra, a qual se deleita em uma mistura do já citado groove com melodias de aparência dissonante em virtude de sua sonoridade estridente e embrionariamente incômoda. Chegando a se pautar na figura do baixo como elemento definidor de sua força motriz, Pela Poesia traz consigo uma paisagem conjuntural vanguardista por combinar referências de funk rock com manguebeat. Capaz de hipnotizar o espectador através de seu compasso rítmico-melódico, Pela Poesia parece reciclar a estrutura lírica da faixa anterior com um quê de profundidade. Afinal, enquanto explora a declamação de uma obra de autoria de Alberto Da Cunha Melo, a faixa não apenas exorta, mas ilustra, reforça e destrincha o papel da poesia como um elemento que oferece poder. Um poder que parece ser quieto e sorrateiro, mas que é possuinte de uma força incomensurável. A poesia pode ser um grito. Pode ser um protesto. Pode ser uma valsa. Pode ser dura, mansa. A poesia dá poder aos oprimidos e promove a paixão pelos romancistas. Sua versatilidade transcende os limites da própria literatura e a fazem um instrumento de voz ativa para uma sociedade refém de forças intolerantes e repressoras.
Os ouvidos se colocam atentos ao entrarem em contato com uma atmosfera até então inexplorada. Soturna, densa e transpirando uma espécie de introspecção melancólica envolta em uma boa dose rigidez, a presente introdução se recai perante uma estrutura minimalista que dá, à guitarra, o título de protagonista absoluto. Capaz de soar densa e com raspas sombrias, essa melodia, inicialmente unilateral, cresce com a presença sincrônica e lexicalmente sincopada da bateria com o baixo. Ainda que tenha uma base bem trabalhada, aqui o que chama a atenção é uma sonoridade sintética aguda levemente estridente produzida pelo sintetizador de Benke Ferraz. É esse detalhe que dá o toque de estranheza que surte na aquisição de um súbito senso de insegurança, ampliando, assim, o escopo sensorial da composição. A excentricidade e a originalidade não se recaem apenas nesses apontamentos. Isso porque, durante seu desenvolvimento, Palíndromo (Oco) evidencia um enredo lírico ecoante de forma a evidenciar a presença da psicodelia moldando a experiência do ouvinte no que tange a vivência de alucinações cuidadosamente induzidas. Amadurecendo sua essência introspectiva e, principalmente, entorpecente, a faixa tem, na ponte, os versos líricos mais chocantes. Porém, Palíndromo (Oco) é, em sua totalidade, chamativa principalmente pelo teor crítico entorno da pobreza estrutural, mas, também, da imprudência policial. Mostrando a perfeita combinação, portanto, de um lirismo sócio-analítico com um instrumental, assinado pela Mago Trio, pungente, denso e soturno, a presente faixa ainda exorta um viés reflexivo-dramático ao levar o ouvinte, durante seu encerramento, sobre o pensar o povo nativo brasileiro e a verdadeira identidade de um Brasil apagada pela interferência estrangeira. Uma interferência que, desde tempos longínquos, apesar de parecer inofensiva, tem cada vez mais roubado a essência linguística-comportamental de um povo que sucumbe diante do mais forte.
É verdade que, até mesmo para um EP, o primeiro ato de O Trem De Belo Jardim é curto. Porém, isso se refere única e exclusivamente à sua lista de faixas. Não à sua temática lírica e, muito menos, às suas combinações rítmico-melódicas. Eis aqui, um trabalho com sangue regional e com letras que combinam descontentamentos sociais com a exaltação de aspectos da cultura tanto universal quanto local.
Nesse sentido, é interessante perceber o movimento proposto pelo EP. Afinal, de começo, ele oferece um ambiente festivo, animado e envolvente. Porém, vai seguindo, gradativamente, para uma profundidade de pensamento crítico em meio estruturas sonoras que se tornam cada vez mais densas. E com esse peso, se alcança a seriedade, inclusive, dos temas líricos propostos.
Nesse ponto, o material convida o ouvinte a pensar sua origem, mas também sobre sua fragilidade frente a influências externas. Chama a atenção para questões associadas à pobreza, à alienação e, também, à imprudência policial. Mostra, inclusive, o papel da literatura, com a vertente da poesia, como instrumento de poder e protesto contra questões que desarmonizam a sociedade em sua ampla estrutura. Sonoramente, para dar peso a essas temáticas, O Trem De Belo Jardim explora a mistura do universal com o regional através da combinação de ritmos como manguebeat, baião e coco agraciados por pitadas de uma influência religiosa afro, com o rock. Daí, se tem sensualidade, frescor e pungência.
No que tange o processo de mixagem, ele, aqui, foi muito feliz. Assinado por Djalma Rodrigues, ele traz, com precisão, o instrumental proposto pelo Virgulados. Bem trabalhado, aqui todo o instrumental pode ser identificado tanto em conjunto quanto individualmente. Destacando a precisão e a consistência instrumental do grupo, o profissional ainda deu voz ao caráter de crueza também pertencente à identidade sonora.
Já na produção, Ferraz se mostra um profissional que não apenas captou a identidade do grupo, mas parece ter puxado sua capacidade musical e, estimulado, a sintonia instrumental. Afinal, ao destacar a regionalidade, o produtor deu voz à originalidade de tal forma que combinou visão de mundo e noção de pertencimento de uma só vez.
Fechando o escopo técnico, vem a arte de capa. Assinada por Anynha Portilla e Soraya Feitoza, ela evidencia o quarteto em uma natureza de pura descontração. Misturando a cor cinza, ao fundo, com um vermelho vivo presente na roupa dos integrantes, é possível se identificar uma mistura de imponência e conformidade, detalhes que, não necessariamente, são encontrados nas composições. Trazendo o nome Virgulados em uma escrita que destaca a identidade de cordel em seu estilo de grafia, a capa, também, se permite aludir ao regionalismo.
Lançado em 23 de junho de 2025 de maneira independente, O Trem De Belo Jardim, em seu Ato 1, permite a fusão da cultura regional com posicionamentos sócio-críticos. Ele escancara a identidade local enquanto explora o poder do questionamento por meio da exaltação de vertentes literárias. Eis aqui, portanto, um produto que, com pouco, fez muito ao unir literatura, música e, acima de tudo, um senso de pertencimento local.

