Existe tensão, mas também um clima de caos, de assombro. De agonia. Quanto mais a guitarra de exerce a sua desenvoltura melódica inicial, mais o ouvinte se perde em meio à sua angústia premeditada. Nesse ínterim, é interessante perceber como os punchs da bateria de Leonardo Cacione criam um tom épico, assim como seus respectivos repiques dão ao espectador a ideia de uma marcha não somente fúnebre, mas rumo a um embate iminente.
Com esse cenário em mente, o espectador se percebe em um lugar ausente de luz natural. Um lugar asqueroso, pegajoso. Sombrio. Eis que uma voz rompe um estado de torpor lancinante. Um timbre masculino e afinado em seu tom equilibrado entre agudez e dulçor. Fabrício Fonseca, através da interpretação lírica que assume, desperta um estado de espírito que mistura clemência e uma raiva censurada, mas nitidamente incandescente.
Explodindo em um refrão de puro drama, visceralidade e intensidade, a canção frisa que a presença do teclado de Vitor Hugo a torna ainda mais sofrida. E não é por menos. Em Rain Down, Fonseca se contorce de culpa e lamento. Um arrependimento que transborda da pele, do sangue. Do coração. Um desejo. Uma vontade. Uma tristeza. Eis aqui uma história de amor de final triste, mas que sonha, grita, clama por uma segunda chance. Uma chance para fazer direito. Uma chance para excluir os erros da dor.
Porém, uma coisa desperta certo pesar em Rain Down. É fato que dá para sentir o sofrimento, a dor, a culpa. Ainda assim, é inegável que a Gramane Records, ao realizar trabalho de mixagem, cometeu um leve escorregão em tal atividade. Isso porque o som final, aquele entregue ao ouvinte, é de uma densidade menor do que a música necessita para criar o peso e a consistência que entrem em acordo com o tamanho da lamúria do personagem. Se assim fosse, certamente a experiência do ouvinte, que já é profunda, alcançaria patamares de uma intensidade cirúrgica.

