Helena Magnan - Gambiarra

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A delicadeza, a graça, o charme e uma sensualidade aveludada dominam a atmosfera introdutória a partir de uma união sonora envolvente e penetrante que se divide entre dois mundos. Em um plano, o violão se apresenta manso, intimista e caminhando por entre trotes que induzem o ouvinte à percepção inquestionável da MPB como sendo a sua base sônica. De outro lado, um sonar agudo, encorpado e doce no sentido do toque açucarado, sobrevoa o cenário a partir de uma valsa amaciada e de requinte introspectivo a partir da desenvoltura do saxofone alto.


Flertando com a aura da bossa nova, mas imergindo cada vez mais em relação às brisas de um jazz sutil, a faixa, assim que começa a viver seu enredo lírico, destaca a presença de uma voz feminina suave e serena que reforça, com maestria, a MPB como importante ingrediente da sua estrutura. Na posse de Helena Magnan, esse timbre exala uma identidade fanhosa a ponto de comunicar uma interessante semelhança em relação ao tom possuinte de Vanessa da Mata. Com ele promovendo modulações lírico-interpretativas que induzem o espectador a perceber nuances de uma harmonia singela, a faixa permite que novos elementos se apresentem e preencham a sua paisagem.


O som uivante da cuíca, desde o instante em que se faz presente, permite a adoção de uma nova dose de maciez perante a paisagem sônica da canção, ocasionando, inclusive, na ampliação de sua delicadeza estética de forma a trazer, também, o samba à sua roda de influências musicais. Se felicitando da bateria como elemento que introduz cadência, precisão e certa densidade, a composição, no que tange ao aspecto estritamente percussivo, passa a ser gentilmente abraçada pelo caxixi. Sua textura granulada e de sensação suavemente fibrosa dá à composição uma identidade não apenas nativa, mas, principalmente, autêntica.


É assim que Gambiarra propõe o ouvinte a caminhar por um ambiente doméstico em relação à percepção do aconchego e do afeto. Contemplativa e agraciada por brisas de uma melancolia leve que, aqui, funciona como uma espécie de charme sensorial, o lirismo ganha novas silhuetas a partir do tom etéreo usado por Helena como forma de explorar questões de sobrevivência, resiliência e determinação na vida urbana. Tudo apoiado nas citações sutis da religiosidade, tema que ambienta a faixa na laicidade por fundir figuras do hinduísmo e do candomblé. Uma música bela que, apesar de escorregar na linearidade harmônica, não interfere no seu resultado final de atração, mixagem, mensagem e sensibilidade.

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Sobre o crítico musical

Diego Pinheiro

Quase que despretensiosamente, começou a escrever críticas sobre músicas. 


Apaixonado e estudioso do Rock, transita pelos diversos gêneros musicais com muita versatilidade.


Requisitado por grandes gravadoras como Warner Music, Som Livre e Sony Music, Diego Pinheiro também iniciou carreira internacional escrevendo sobre bandas estrangeiras.