Depois do anúncio de dois EPs ao longo de quatro meses, o quarteto pernambucano Virgulados enfim anuncia o terceiro e último ato de O Trem De Belo Jardim, aquele que, agora, se mostra seu novo e completo material. Intitulado Autorretrato (Ato 3), o novo EP conta com três músicas inéditas e fortalece a produção assinada por Benke Ferraz.
Seu despertar já nasce com uma estrutura madura que chega a surpreender. Encorpada em razão da proeminência do baixo de Gledson Lamartine, a faixa já se mostra capaz de esbanjar uma sensualidade regional marcante que, de início, dá base para uma espécie de vinheta de apresentação entoada por David Biriguy e seu tom graciosamente agridoce. De maneira rápida, mas ao mesmo tempo sutil, a bateria de Heligeison Feitosa passa de um minimalismo oco para algo tão sensual quanto a desenvoltura do baixo. Saliente e sincopado, o instrumento traz consigo uma identidade rítmica nordestina inebriante que abraça, com agradável calor, o universo rítmico do forró. Nesse ínterim, a guitarra de Eduardo Albuquerque se posiciona na dianteira melódica oferecendo, com sua agudez contagiante, uma melodia swingada que traz consigo uma malemolência irresistível. Para os ouvidos atentos, se percebe a presença de outra voz acompanhando o desenrolar lírico dominado por Biriguy. Mais grave e com uma cadência generosamente mais sincopada de forma a atingir um compasso rappeado, o timbre de PRKILLA dá uma textura levemente crua à obra, contribuindo para o enaltecimento das texturas e sabores até então fornecidos. Com sua presença, portanto, a faixa-título se forma, liricamente, por meio de versos repletos de rimas pobres de finais homófonos, contribuindo para a sua melhor assimilação por parte do espectador. Leve e sedutora, a faixa se utiliza de uma estrutura rítmico-melódica contagiante para criar certa suavidade e disfarçar o peso de seu conteúdo verbal. Afinal, aqui o Virgulados mostra o poder não apenas da literatura em forma de poema, mas da música em sua forma melódica, como forma de dar voz aos esquecidos e negligenciados. De outra forma, é como se cada um de seus versos fosse o vociferar de cada personalidade pertencente ao vocalista, às vezes escondidas e canceladas, mas nunca definitivamente excluídas de sua essência.
Diferente do que aconteceu anteriormente, a guitarra é quem puxa a introdução. Porém, diante de sua desenvoltura melódica, o instrumento foge do contágio extasiante e swingado e passa a mergulhar em um universo de sensorialidade introspectiva a ponto de beirar a melancolia. Curiosamente, tal estrutura sonora rapidamente acaba ambientando o ouvinte em meio a um cenário de caatinga por conseguir capturar uma mistura de regionalidade simultaneamente esperançosa e entristecida. O que mais destaca essa natureza emocional é o fato de que até mesmo o xote desenhado pela bateria vem propositadamente apagado e sem aquela vivacidade típica desse subgênero do forró. Amplificando, portanto, a sensorialidade inerente à melancolia, a faixa vai explorando, com certa delicadeza, uma espécie de valsa sensual em razão de sua maciez ligeiramente associada ao torpor. Fresca, intimista e cheia de lamúria, Ataques é uma canção que funciona como a captura exata da forma como o inconsciente faz, do indivíduo, o seu refém. Através da declamação de um poema cuidadosamente rimado, o sofrimento se faz presente como um sintoma sorrateiro que, aqui, surge do inesperado. A fragilidade e a vulnerabilidade emocional expõe quão suscetível a pessoa pode ser à dor, um sentimento que, em Ataques, prova ser capaz de alcançar atos autodestrutíveis.
O andamento rítmico mantém a mesma mansidão da composição anterior, de forma que a guitarra, aqui, consegue soar denotativamente embriagante com o seu ressoar amaciado e cuidadosamente reverberante. No entanto, o baixo retoma seu posto de forma notável, fazendo com que a obra seja agraciada por uma boa dose de corpo e densidade. A partir da presença do instrumento, portanto, é como se o Virgulados brincasse com a ideia da lucidez tentando vencer o torpor viciante e sedutor. Tendo o xote também como parte de seu alicerce rítmico, a faixa chama a atenção por ter, na cadência lírica, o elemento a ofertar o sincopado. Fresca e encorpada, ainda que beba de uma estrutura linear, a faixa tem, na performance verbal, o fator que confere tensão, expectativa e repentes de uma espécie de adrenalina intrigante que se mostra pinçante a cada novo verso finalizado. Diário De Bordo, a partir daí, funciona como uma obra agraciada pela metalinguagem. Estruturada liricamente em forma de poema, a canção enaltece o poder desse texto literário como força criativa capaz de marcar aqueles que presenciam as suas respectivas declamações.
Autorretrato (Ato 3) se mostra um EP sensorial. Essa identidade realmente consegue definir, com exatidão, tudo aquilo que o material tem a oferecer à sua audiência. Com um cardápio completo que vai de texturas macias; posturas expansivas que se transformam em introspectivas e sorrateiras com uma versatilidade impressionável; e emoções melancólicas; o extended play traz consigo a representação do inquieto, do inconstante e do vulnerável.
Com apenas três faixas, o produto leva o ouvinte para uma viagem musical graciosamente ambientada no nordeste e em todas as suas sensorialidades, sejam elas pautadas em seus ritmos, climas ou, ainda, vegetação. Ainda assim, tudo entra em um consenso que faz com que o espectador seja dominado por um caráter que combina o intimismo com autoanálise.
Tudo isso pode ser identificado, inclusive, pela competência do trabalho efetuado por Djalma Rodrigues em sua função como engenheiro de mixagem. Nela, o profissional conseguiu destacar não apenas o baixo em si, mas a forma como ele e a bateria contribuem para a afirmação de uma identidade regional forte. Afinal, as ambiências oriundas do forró e o protagonismo do xote proporcionam uma excentricidade nordestina marcante.
Capazes de serem destacados em razão da estrutura ao qual foi submetido, esses detalhes fazem com que Autorretrato (Ato 3), uma vez mais, prove a sensibilidade e a sintonia de Benke Ferraz para com os objetivos do Virgulados. Sempre dispostos a enaltecer sua origem nordestina, o grupo fornece sinceridade e uma veia artística que abre horizontes infindáveis com as suas obras poetizadas em melodias delicadas e respeitosas.
Fechando escopo analítico, vem a arte de capa. Assinada novamente pela parceria entre Anynha Portilla e Soraya Feitoza, ela consagra o vermelho como a identidade visual do grupo, ao passo que, automaticamente, comunica a sua natureza regional xerófila. Como uma espécie de layout padrão, a obra traz, em evidência, os quatro integrantes do grupo em diferentes poses, mostrando, de certa forma, um toque de versatilidade.
Lançado em 30 de dezembro de 2025 de maneira independente, Autorretrato (Ato 3) é um EP cheio de metalinguagens, poesias e regionalismos. Combinando poemas com melodias e um toque autobiográfico que torna a sua paisagem sônica ainda mais marcante, o material é a exploração da fragilidade humana e de como a literatura pode funcionar como uma perfeita arma em prol da livre expressão. Um produto que fecha, de maneira impecável, a trilogia que forma a totalidade de O Trem De Belo Jardim.

